Medicina

Escalas de Emergência na Medicina: Glasgow, Wells e Mais

Guia das principais escalas clínicas na emergência: Glasgow, Wells, CURB-65 e quando aplicar cada uma na prática.

Publicado em 28/05/2026 · Atualizado em 20/10/2018

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Na emergência, cada segundo conta. O profissional de saúde precisa tomar decisões rápidas e precisas, muitas vezes com informações limitadas. As escalas clínicas são ferramentas que transformam dados clínicos em escores padronizados, facilitando a comunicação entre a equipe, a estratificação de risco e a tomada de decisão. Da avaliação neurológica com a Escala de Glasgow à avaliação de risco tromboembólico com a Escala de Wells, dominar as principais escalas de emergência é essencial para qualquer médico, enfermeiro ou paramédico. Neste guia, você vai conhecer as escalas mais utilizadas na emergência, quando aplicar cada uma e como interpretar os resultados.

Por que usar escalas clínicas na emergência

As escalas clínicas servem a três propósitos fundamentais:

1. Padronização da comunicação: Quando um enfermeiro diz "Glasgow 8", toda a equipe imediatamente entende o nível de consciência do paciente, sem ambiguidade.

2. Estratificação de risco: As escalas quantificam a gravidade, permitindo priorizar pacientes, definir destino (UTI, enfermaria, observação) e iniciar condutas apropriadas.

3. Decisão baseada em evidências: Muitas escalas são validadas por grandes estudos e incorporadas em diretrizes internacionais, orientando condutas com base em dados, não apenas em intuição.

Escala de Coma de Glasgow (ECG)

A Escala de Glasgow é a mais utilizada no mundo para avaliação do nível de consciência. Criada em 1974 por Graham Teasdale e Bryan Jennett no Instituto de Ciências Neurológicas de Glasgow, Escócia, ela é obrigatória na avaliação de todo paciente com alteração de consciência.

Componentes

RespostaPontuação
Abertura ocular
Espontânea4
Ao comando verbal3
À dor2
Nenhuma1
Resposta verbal
Orientada5
Confusa4
Palavras inadequadas3
Sons incompreensíveis2
Nenhuma1
Resposta motora
Obedece comandos6
Localiza dor5
Flexão normal4
Flexão anormal (descorticação)3
Extensão (decerebração)2
Nenhuma1

Interpretação

  • 15: Paciente consciente, orientado
  • 13-14: Confusão leve — monitorar
  • 9-12: Confusão moderada — considerar TC de crânio
  • 3-8: Coma — indica intubação orotraqueal para proteção de via aérea

Quando usar

  • Traumatismo cranioencefálico (TCE)
  • Acidente vascular cerebral (AVC)
  • Intoxicações
  • Sepsis com alteração de consciência
  • Qualquer paciente com rebaixamento do nível de consciência

Limitações

A Glasgow não avalia pupilas, reflexos cranianos ou padrão respiratório. Para uma avaliação neurológica completa, combine com exame pupilar e avaliação de pares cranianos.

Escala de Wells para Tromboembolismo Pulmonar (TEP)

A Escala de Wells estratifica a probabilidade clínica de TEP em pacientes com suspeita de tromboembolismo.

Critérios

CritérioPontos
Sinais clínicos de TVP3
Diagnóstico alternativo menos provável que TEP3
Frequência cardíaca > 100 bpm1,5
Imobilização ou cirurgia nos últimos 30 dias1,5
Histórico prévio de TVP ou TEP1,5
Hemoptise1
Neoplasia ativa1

Interpretação

  • 0-1 pontos: TEP improvável → solicitar D-dímero. Se negativo, TEP é descartado. Se positivo, solicitar angioTC.
  • 2-6 pontos: TEP moderadamente provável → solicitar angioTC de tórax diretamente.
  • > 6 pontos: TEP altamente provável → iniciar anticoagulação empírica e solicitar angioTC.

Aplicação prática

Na prática, pacientes com Wells ≤ 4 e D-dímero negativo têm probabilidade de TEP inferior a 1%, permitindo alta com segurança. Pacientes com Wells > 4 devem ser anticoagulados enquanto aguardam imagem.

Escala de APGAR

O APGAR é aplicado em todo recém-nascido no 1º e 5º minuto de vida para avaliação rápida da vitalidade. Criado pela anestesista Virginia Apgar em 1952, ele é universalmente utilizado em obstetrícia.

Critérios (1 e 5 minutos)

Critério0 pontos1 ponto2 pontos
Aparência (cor)Azul/pálidoCorpo rosado, extremidades azuisTotalmente rosado
PulsoAuscente< 100 bpm≥ 100 bpm
Grimaça (irritabilidade reflexa)Sem respostaCaretaChoro vigoroso
Atividade tônicaFlácidoFlexão moderadaMovimentos ativos
RespiraçãoAusenteIrregular, choro fracoChoro vigoroso, respiração regular

Interpretação

  • 7-10: Normal — cuidados de rotina
  • 4-6: Moderadamente deprimido — ventilação com bolsa-valva-máscara, aspiração, estímulo
  • 0-3: Grave — reanimação neonatal imediata

Quando reaplicar

Se o APGAR do 1º minuto for < 7, reaplicar a cada 5 minutos até atingir ≥ 7 ou até 20 minutos. O APGAR de 5 minutos é mais preditivo de desfecho neurológico que o de 1 minuto.

Escala de CURB-65 para Pneumonia

A CURB-65 estratifica a gravidade da pneumonia adquirida na comunidade e orienta a decisão entre tratamento ambulatorial e internação.

Critérios

CritérioPontos
Confusão mental (Glasgow < 15 ou desorientação)1
Ureia > 50 mg/dL (ou > 7 mmol/L)1
Respiração ≥ 30 irpm1
BPAS < 90 mmHg ou PAD ≤ 60 mmHg1
Idade ≥ 65 anos1

Interpretação

  • 0-1: Tratamento ambulatorial
  • 2: Considerar internação ou observação em hospital-dia
  • 3-5: Internar — risco de morte de 5-40%

Escala de FAST para AVC

O FAST (Face, Arms, Speech, Time) é uma ferramenta de triagem pré-hospitalar para identificar suspeita de AVC agudo.

Componentes

  • F (Face): Peça ao paciente para sorrir. Há assimetria facial?
  • A (Arms): Peça para levantar ambos os braços. Um cai?
  • S (Speech): Peça para repetir uma frase simples. A fala está arrastada?
  • T (Time): Se qualquer um dos sinais estiver presente, anote o horário e ligue para o SAMU (192)

Interpretação

A presença de qualquer um dos sinais tem sensibilidade de 72-89% para AVC. O paciente deve ser transportado imediatamente para um hospital com capacidade de trombólise (janela de 4,5 horas) ou trombectomia (janela de 24 horas em casos selecionados).

Escala de NEWS (National Early Warning Score)

O NEWS é utilizado para monitoramento de pacientes hospitalizados, detectando deterioração clínica antes que ela se torne evidente.

Parâmetros

Parâmetro3210123
Frequência respiratória≤89-1112-2021-24≥25
Saturação O₂≤9192-9394-95≥96
Uso de O₂ suplementarSimNão
Temperatura≤3535,1-3636,1-3838,1-39≥39,1
PAS≤9091-100101-110111-219≥220
Frequência cardíaca≤4041-5051-9091-110111-130≥131
ConsciênciaAlertaV, P ou U

Interpretação

  • 0-4: Risco baixo — monitoramento de rotina
  • 5-6: Risco intermediário — avisar equipe médica
  • ≥7: Risco alto — avaliação médica imediata, considerar transferência para UTI

Escala de MEWS (Modified Early Warning Score)

Uma versão simplificada do NEWS, amplamente usada em pronto-socorros brasileiros. Avalia pressão arterial, frequência cardíaca, frequência respiratória, temperatura e nível de consciência.

BLS e ACLS: algoritmos de emergência

Além das escalas, os profissionais de emergência devem dominar os algoritmos de suporte básico (BLS) e avançado (ACLS) de vida.

BLS (Basic Life Support)

  1. Verificar responsabilidade — estímulo verbal e tátil
  2. Ligar 192 (SAMU) — solicitar DEA
  3. Iniciar compressões torácicas — 100-120/min, profundidade 5-6 cm
  4. Ventilar — 30:2 (compressões:ventilações)
  5. Usar DEA — assim que disponível

ACLS (Advanced Cardiovascular Life Support)

  • FV/TV sem pulso: Desfibrilação imediata + RCP de alta qualidade
  • Assistolia/Atividade elétrica sem pulso: RCP + Adrenalina 1mg IV a cada 3-5 minutos
  • Bradicardia sintomática: Atropina 0,5mg IV (até 3mg), considerar marcapasso transcutâneo
  • Taquicardia estável: Manobras vagais, Adenosina 6mg IV (se QRS estreito regular)

Escala de Glasgow modificada para crianças

Para crianças menores de 2 anos, a resposta verbal é adaptada:

  • 5: Balbucia normal, interage
  • 4: Chora mas consolável
  • 3: Chora inconsolável
  • 2: Gritos, gemidos
  • 1: Sem resposta

Conclusão

As escalas de emergência são ferramentas indispensáveis para a prática clínica. Elas padronizam a comunicação, estratificam riscos e orientam condutas baseadas em evidências. Dominar a Glasgow, Wells, APGAR, CURB-65, FAST, NEWS e os algoritmos BLS/ACLS é essencial para qualquer profissional que atua em emergência. Para complementar sua prática, a Toolspace oferece calculadoras médicas gratuitas em /medicina, incluindo calculadoras de escalas clínicas e outras ferramentas para profissionais de saúde.

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