Questão 20 do ENEM 2023 — Linguagens
No princípio era o verbo. A frase que abre o primeiro capítulo do Evangelho de João e remete à criação do mundo, assim como também faz o Gênesis, é a mais famosa da Bíblia. A ideia de que o mundo é criado pela palavra, porém, é tão estruturante que está presente em outras religiões, para muito além das fundadas no cristianismo. Como humanos, a linguagem é o mundo que habitamos. Basta tentar imaginar um mundo em que não podemos usar palavras para dizer de nós e dos outros para compreender o que isso significa. Ou um mundo em que aquilo que você diz não é entendido pelo outro, e o que o outro diz não é entendido por você. O que acontece então quando a palavra é destruída e, com ela, a linguagem? Durante séculos, em diferentes sociedades e línguas, é importante lembrar, a linguagem serviu — e ainda serve — para manter privilégios de grupos de poder e deixar todos os outros de fora. Quem entende linguagem de advogados, juízes e promotores, linguagem de médicos, linguagem de burocratas, linguagem de cientistas? A maior parte da população foi submetida à violência de proposital mente ser impedida de compreender a linguagem daqueles que determinam seus destinos. Se o princípio é o verbo, o fim pode ser o silenciamento. Mesmo que ele seja cheio de gritos entre aqueles que já não têm linguagem comum para compreender uns aos outros. BRUM, E. Disponível em: https://brasil.elpais.com. Acesso em: 5 nov. 2021. Nesse texto, a estratégia usada para convencer o leitor de que uma grande parcela da população não compreende a linguagem daqueles que detêm o poder foi
- A)Revelar a origem religiosa da linguagem.
- B)Questionar o temor sobre o futuro da linguagem.
- C)Descrever a relação entre sociedade e linguagem.
- D)Apresentar as consequências do esfacelamento da linguagem.
- E)Criticar o obstáculo promovido pelos usos especializa- dos da linguagem.
Gabarito oficial: alternativa E)
O texto utiliza como estratégia central a crítica aos usos especializados da linguagem para convencer o leitor de que grande parcela da população é excluída do entendimento dos discursos de poder. O autor enumera linguagens específicas (jurídica, médica, burocrática, científica) e as caracteriza como instrumentos deliberados de exclusão, violência e manutenção de privilégios.
Ver comentário de cada alternativa
- A) Por que está errada: O autor menciona a origem religiosa da linguagem no início do texto (referência ao Evangelho de João e ao Gênesis) apenas como ponto de partida para sua reflexão, como contextualização. Essa referência não é a estratégia usada para convencer o leitor sobre a exclusão linguística da população. Trata-se de um recurso introdutório, não do cerne do argumento.
- B) Por que está errada: Embora o texto levante a possibilidade de um 'fim' marcado pelo silenciamento (penúltimo parágrafo), essa reflexão sobre o futuro da linguagem serve como consequência do problema apresentado, e não como a estratégia central de convencimento. A pergunta pede a estratégia usada para mostrar que a população não compreende a linguagem do poder, e isso não se resolve com questionamentos sobre o futuro.
- C) Por que está errada: Essa alternativa é genérica demais. O texto de fato aborda a relação entre sociedade e linguagem, mas a estratégia específica usada para convencer o leitor sobre a exclusão não é meramente 'descrever' essa relação — é criticar ativamente os usos especializados da linguagem como instrumento de poder e exclusão. A alternativa C dilui o foco argumentativo do autor.
- D) Por que está errada: O esfacelamento da linguagem e o silenciamento são mencionados nos dois últimos parágrafos como desdobramentos do problema, mas não constituem a estratégia principal de convencimento. A pergunta se refere ao argumento central do texto — a crítica à linguagem especializada como obstáculo — e não ao que acontece quando a linguagem é destruída.
- E) Por que está certa: Esta é a resposta correta. No terceiro parágrafo, o autor critica explicitamente como linguagens especializadas (de advogados, juízes, promotores, médicos, burocratas e cientistas) funcionam como barreiras que impedem a maior parte da população de compreender 'aqueles que determinam seus destinos'. Ele caracteriza isso como 'violência' e como um mecanismo 'propositital' de exclusão e manutenção de privilégios. A expressão 'Quem entende...?' reforça o tom de denúncia e crítica, que é a estratégia de convencimento utilizada.
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